23 de jan. de 2009

Pequeno trecho de uma tentativa de Romance

Da janela, vejo o céu azul. Azul, bem azul com ínfimas nuvens. No varal a secar ao sol, multicoloridas roupas estendidas: camisa vermelha, vestido rosa, calcinhas amarela, roxa, branca. Em sua completude alaranjada, contrastante à inércia de tudo o mais, borboleta sobrevoa o cenário; os ramos de maracujá e trepadeiras de tomates que crescem no quintal. Os olhos são as janelas da alma. Pergunto-me apenas como adentrarei a minha própria, pois meus olhos... esses não os vejo.
Burburinho de sons ao silêncio. Ranger das roupas lavadas no tanque; chinelopas roçando no chão; palavras indecifráveis de quem fala consigo próprio; patinhas leves estalando em piso de tacos; a água que escorre e cai na poça; o zumbido do ventilador que mata a sede do calor.
Ausente é o desejo de sair da janela para adentrar nesse quarto. Prefiro ater-me aos tomates e aos maracujás ainda verdes; bichos passeando por entre as folhas, meio roídas e esburacadas. Dentro, uns poucos livros. Nenhuma literatura dessas brasileiras que emociona, exceto a trazida por mim; Angústia. Graciliano me perdoará em confessar que a leitura não me prende. Eis minha inquietude, apenas. Carrego, portanto, o volume de cima a baixo, esperando a alma sossegar.
É no quarto dele que estou. Não é no quarto dele que ele está. Sete meses se passaram. Lembro com detalhes, cada canto, cada momento aqui vivido. O mundo de 1982 pendurado na parede; alguns quadros de copos-de-leite e paisagens distantes; alguns retratos de infância; o violão encostado... ampulheta. Insuficientemente, o tempo corre. Reconheço-te nas fotografias, embora, marcada em minha memória, esteja tua face endurecida.
A caneta vai à boca sem propósito. Tanto se passa em minha mente. Mal notara as fileiras de rasgos na poltrona ao lado, a mostrar as peraltices dos nove gatos que aqui habitam. Com algum sempre cruzo; seja na cama, sesteando comigo, seja nos corredores, onde me olham com indiferença , buscando água.




Madame Schopenhauer, que hoje decidiu exorcizar do papel a péssima tentativa de escrever um romance, em viagem, salvando futuros leitores de mais um livro despropositado.

PS: Nosso espaço de comentários faz muita falta, mas o blog está lindíssimo.

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