21 de dez. de 2008

Fones de ouvido: forma de estar autista.

Achava o tempo uma coisa engraçada. Ele parecia uma entidade superiora, capaz de mudar ou manter tudo, vontade própria lhe cabia, deixando os pobres seres restantes à mercê de seus caprichos. Mas não podia ser assim. Ou, ao menos, se recusava a acreditar que era dessa forma.

[Pausa para um assassinato. Os olhos esquadrinhavam a sala à procura do maldito mosquito que lhe picara durante a noite anterior. Não conseguia se concentrar. Não conseguiria pensar em nada antes de uma palmada bem dada no inseto. Tirar-lhe a vida era a meta sangüinária do ser maior. Maior. Fitou o ambiente por uns minutos. Mão com mão, mosquito no meio, aqui jaz.]

Algum controle tinha que ter sobre aquilo tudo. À cada minuto, coletivo de segundos, envelhecia mais e mais. E os outros cresciam à sua volta. Sentia o peso das memórias aumentando gradativamente sem entender muito bem o porquê, porque não às via. Esquecia as fatídicas, esmaeciam.

Ainda assim, criava novas. Era divertido imaginar que a realidade havia sido diferente, com cores mais quentes, cheiros mais úmidos. Que mal fazia? Ela própria não lembrava mais nada, era a sua própria cabeça, achava o que queria. E acreditava na versão de realidade inventada, sem nenhum pudor, com blocos de certa lucidez. Devem ser cera. Fácil como é fácil para uma criança escrever redação criativa. Seus monstros, seus heróis, eram uma releitura dos personagens que seus próximos interpretavam o tempo todo. Tudo é mesmo uma grande farsa. O melhor era guardar o acontecido da sua forma peculiar, tratando-o com o melhor adubo.

A unicidade do fato lhe dava todo o sentido que faltava na vida.

Ah. Os fones de ouvido? Não sei mais. Esqueci.

2 comentários:

mainina disse...

Duas questões e uma afirmação:

Pra que tantas crases?
Por que todos os parágrafos começam com "a"?
A história do mosquito ficou mais legal.

=)

Nat disse...

hahahahaha

Nem tinha me tocado dessas coisas...
=P